Ir ao psicólogo: um ato de coragem

“Por que diabo me aventurarei a explorar os porões de minha cabeça, lugares malcheirosos e arriscados, se eu não for empurrado pela vontade de resolver um conflito, acalmar um sintoma e conseguir viver melhor?”

Contardo Calligaris

O trecho acima, retirado de um livro do famoso psicanalista Contardo Calligaris, ilustra bem o dilema de se aventurar pelas salas de terapia.

Afinal, o que nos leva a ir semanalmente a um sujeito que por tantas vezes me diz verdades que não quero ouvir, fica por minutos (que mais parecem horas) em um silêncio absurdamente incômodo e constrangedor, me faz notar coisas que me esforcei em não perceber e, no final, ainda me faz pagar por tudo isso?!

De fato, encarar um psicólogo requer muita coragem e determinação.

Não estamos acostumados a ter um espaço para falar sem temer o julgamento e o olhar de reprovação alheio. Admitir suas verdades, conceitos e pré-conceitos perante o outro – e também frente a si mesmo – demanda um profundo fôlego para se assumir em meio a todos esses pensamentos. A se encontrar e se reconhecer em suas histórias, em suas verdades e convicções.

Não estamos acostumados com o silêncio. Vivemos em um mundo com cada vez mais estímulos que nos bombardeiam o tempo todo. Em meio a tanta informação, SE ouvir é cada vez mais difícil. Suportar o peso do silêncio – seu e do outro – pode ser massacrante. Perder-se em meio a uma rotina agitada pode ser muito mais confortável do que ouvir suas palavras ecoando sem retorno, do que dedicar um tempo para pensar em si próprio. O que você disse realmente faz sentido? Já parou para pensar sobre suas palavras? Já parou para SE ouvir?

Rejeitamos o que nos incomoda. Quando somos picados por uma agulha, por exemplo, imediatamente temos o reflexo de nos afastar do estímulo que causou aquela dor. Com nossos pensamentos e sentimentos não seria diferente. Acabamos por esconder embaixo do tapete tudo o que gera dor, angústia, tudo o que ficou incompreendido, que nos causa sensações que muitas vezes nem sabemos nomear, mas sabemos que implicam em desconforto. Estar aberto para vasculhar esse porão malcheiroso, não será fácil. Mas quem é que nunca se sentiu melhor após ver o resultado de uma faxina intensa ou reorganizar um espaço que estava muito bagunçado?

Por isso, digo que fazer terapia requer, sim, muita coragem: para se assumir, se enfrentar, ficar cara a cara com suas dores, medos e o que há de pior – e melhor – dentro de si. Requer coragem para mudar. Mas a grande recompensa é que, além de ir dando outra cara a esse porão, dificilmente continuaremos a ser a mesma pessoa a cada vez que passarmos por sua porta.

 

Crédito da imagem: Shutterstock
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